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27 maio, 2009

Sangria


A Luz que abençoa é a mesma que cega
E adensa Sombras
Os mesmos Ventos suaves 
que diminuem o suor
Arrastam corpos em tufões
O Solo acolhedor, casa dos devires,
Soterra sem amor 
os que desafiam sua posição
A Sopa em que a vida fervilha
Agiganta-se e derrama-se 
sobre a cidade de almas vazia
A Chama mesma que aquece 
num rompante abre artérias.

O meio é um lugar invisível
Entre chamas e gelos
queima-se muito quem nele não andar
Sede há de passar se apenas um lado escolher
Afogar-se-á se no outro beber
Opostos dispostos num mesmo caminho retilíneo,
áspero, solitário, bandido.
Quais as opções à disposição?
Apenas o branco no cinza, o azulejo na parede 
e o amarelo dos olhos cansados de  não fingir servidão.

Iluminar-se é anseio, mas
Sombras adensam-se na presença da Luz
Mais fortes tornam-se se miradas de soslaio
por quem as pretende ver de frente
Mascaradas quaisquer forças arrastam ao chão
Desvendadas podem dragar ao precipício a razão.

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Há medida exata que separe a loucura da demência mecanicista?

Tatiana Mamede.

Deleite-se ouvindo Bullet the blue sky - Sepultura

05 maio, 2009

Emergir


Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.
Carlos Drummond de Andrade



Nestes dias de mudança de Lua, 
estes em que sempre me quedo
como as águas deitam-se ao chão.

Movimentos de ventos em surdinas
e sóis esmaecidos habitando 
olhos vivamente vítreos
circundam meus ouvidos.

Horas de defenestrar-me do corpo
e recolher-me à alma
para escutar as profundezas 
de minhas superfícies.

Momentos de escutar-me com as mãos
que tateiam um sentido para as 
vozes encerradas nos enlaces das
fibras reluzentes de ser.

Nestes dias de mudança de Lua,
 dias em que telúricas ondinas 
dançam e sopram seus fogos em mim
sou mais minha.
Infinitamente minha.

Tatiana Mamede.

Deleite-se ouvindo Lua Vermelha - Maria Bethânia

04 maio, 2009

Engasgada


Há dias uma poesia se hospeda
Na garganta.
Faz vezes de querer ser expelida,
Mas não se desaconchega 
Do espaço entre a glote e a mão
Não salta para tela,
Nega-se à caneta!
Fica natimorta 
entre carótidas e jugulares.

Estas palavras que não se revelam
Ainda hão de matar o poeta.
Incompleto ele será encontrado
 Inerte ao lado de vírgulas e
 Pontos sem par, 
De exclamações sem versos e 
Da pálida inspiração desencantada.

Tatiana Mamede.

Deleite-se ouvindo A palavra certa - Herbert Vianna