02 Fevereiro, 2010

Jantar

Foto: Google Images

Angústias no fel marinadas
Em mudo desespero assadas
Com maternais lágrimas gratinadas
E de cal polvilhada.

À inocência ao chão atirada
Nem acre vinho acompanha
A refeição da decepcionada.

Tatiana Mamede.

Deleite-se ouvindo Cântico Negro - Maria Bethânia

30 Janeiro, 2010



Falta o ar de respirar
E a comida de alimentar.

Falta o amor de construir
E o perdão de progredir.

Falta a compaixão dos dias
E a fé dos crentes.

Falta vontade de viver
A cada vez que se fita
O alvorecer de um mesmo dia.

Um sem esperança e com muita agonia
Um diálogo redundante
Entre o sofrimento e o inferno.

Um dia sem Deuses
Sem afeto. Sem alegria.
Falta. E mais nada.

Tatiana Mamede.

Deleite-se ouvindo Acalanto para um punhal - Fagner, Robertinho de Recife e Amelinha

01 Janeiro, 2010

E dezembro findou

Foto: Creative

Centro.
Um ponto. O equilíbrio.
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Sempre quero o centro.
Aquele em que não me afasto demasiado do desespero. Nem do gozo.
Um que me proporcione o sorriso e o choro.
O espaço aonde a satisfação máxima é estar vivente e não precisar sangrar todo o tempo para sentir e saber.
O ponto que aninhe os meus muitos eus e os vários vocês que desejo na minha vida existentes.
Daqueles que me deem o prazer sem me usurpar a dor.
Quero estar no equilíbrio e poder abraçar o precipício e abarcar a Lua.
Jogar-me aos ares e abraçar ao Sol. No centro e apenas nele meu ser terreno
vê, sabe, julga e ignora quando necessário.
Centro, o lugar perfeito, o momento ideal de outra vez experenciar a aventura de compartilhar o viver.
Não desejo nada, não resoluciono nada que não caiba em meu Centro.
E em mim cabe um universo inteiro.

Tatiana Mamede.

Com carinho aos afetos de longe, aos de perto, aos de ontem e aos de hoje, todos vocês sempre dentro do meu coração. Feliz reinício!


Deleite-se ouvindo Shiny Happy People - R.E.M.

31 Dezembro, 2009

CHRIS!

Foto: Acervo Familiar

Embora o tempo passado
tenha sido frio e árido,
enquanto tateávamos no escuro a solução
para derrubar o muro
abriu-se uma brecha e por ela um raio de sol...
Seus olhos. Mirando os meus.
Meus olhos. Buscando os seus.
Embora eles trouxessem o cansaço dos meses passados
muito maior é o afeto dos anos lado a lado.
E a felicidade e alegrias de ver-me honrada
com a bênção de ser sua mãe hoje rebrilham
felizes pelo início de sua Roda pessoal.
Ao contemplá-lo desejo que sua caminhada seja divina
E seus passos fortes e determinados,
trazendo a cada escolha a realização
certa dos que se engrandecem de dentro para fora a todas as horas.

"Abençoada seja sua jornada
E que aos seus pés não faltem
A delicada determinação
Para reconhecer as pedras colocadas no caminho
E as necessárias a ele."

Feliz aniversário, filho amado!


Deleite-se ouvindo a atual música preferida do Chris, Recomeçar, do Restart.

15 Dezembro, 2009

Esgar

Foto: Creative

As paredes negras impedem o ar de entrar
Não há esperança que ilumine os vãos deste retiro
Alegria e sorrisos brilham mortiços antes
Mesmo de atingir os lábios que negam-se sofridos
Abafadas solidariedades tentam alcançar as mãos
cansadas de tentar escalar o abismo...

Tatiana Mamede.


Deleite-se ouvindo Zero - Lamb, e desculpem, mas devido a mudanças na RádioUOL será necessário apertar o play...

01 Dezembro, 2009

Inocência

Foto: Creative


Imersa em vinho tinto
Arranca a barra do vestido.
Nada em excesso no peito,
Apenas a claridade lunática,
Nada mais de ter desejos.

Clara, sã, clara, insana, clara!

Nada mais a esconder...

Entontece-se com sombreadas ruas
seguras de seu destino
Ah! Veja, o Sol desponta...
Traz certezas cobertas de dúvidas
Despontam com Ele os disfarces,
Quantas criaturas desenvolvem-se
em sua outra face?


Tatiana Mamede.

Deleite-se ouvindo A cor da dança - Oswaldo Montenegro

27 Maio, 2009

Sangria


A Luz que abençoa é a mesma que cega
E adensa Sombras
Os mesmos Ventos suaves 
que diminuem o suor
Arrastam corpos em tufões
O Solo acolhedor, casa dos devires,
Soterra sem amor 
os que desafiam sua posição
A Sopa em que a vida fervilha
Agiganta-se e derrama-se 
sobre a cidade de almas vazia
A Chama mesma que aquece 
num rompante abre artérias.

O meio é um lugar invisível
Entre chamas e gelos
queima-se muito quem nele não andar
Sede há de passar se apenas um lado escolher
Afogar-se-á se no outro beber
Opostos dispostos num mesmo caminho retilíneo,
áspero, solitário, bandido.
Quais as opções à disposição?
Apenas o branco no cinza, o azulejo na parede 
e o amarelo dos olhos cansados de  não fingir servidão.

Iluminar-se é anseio, mas
Sombras adensam-se na presença da Luz
Mais fortes tornam-se se miradas de soslaio
por quem as pretende ver de frente
Mascaradas quaisquer forças arrastam ao chão
Desvendadas podem dragar ao precipício a razão.

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Há medida exata que separe a loucura da demência mecanicista?

Tatiana Mamede.

Deleite-se ouvindo Bullet the blue sky - Sepultura

05 Maio, 2009

Emergir


Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.
Carlos Drummond de Andrade



Nestes dias de mudança de Lua, 
estes em que sempre me quedo
como as águas deitam-se ao chão.

Movimentos de ventos em surdinas
e sóis esmaecidos habitando 
olhos vivamente vítreos
circundam meus ouvidos.

Horas de defenestrar-me do corpo
e recolher-me à alma
para escutar as profundezas 
de minhas superfícies.

Momentos de escutar-me com as mãos
que tateiam um sentido para as 
vozes encerradas nos enlaces das
fibras reluzentes de ser.

Nestes dias de mudança de Lua,
 dias em que telúricas ondinas 
dançam e sopram seus fogos em mim
sou mais minha.
Infinitamente minha.

Tatiana Mamede.

Deleite-se ouvindo Lua Vermelha - Maria Bethânia

04 Maio, 2009

Engasgada


Há dias uma poesia se hospeda
Na garganta.
Faz vezes de querer ser expelida,
Mas não se desaconchega 
Do espaço entre a glote e a mão
Não salta para tela,
Nega-se à caneta!
Fica natimorta 
entre carótidas e jugulares.

Estas palavras que não se revelam
Ainda hão de matar o poeta.
Incompleto ele será encontrado
 Inerte ao lado de vírgulas e
 Pontos sem par, 
De exclamações sem versos e 
Da pálida inspiração desencantada.

Tatiana Mamede.

Deleite-se ouvindo A palavra certa - Herbert Vianna

30 Abril, 2009

Todos


Quantos cansaços são possíveis?
Quantos cortes aguenta uma emoção?
Quantos arcos-íris suportam a escuridão?
Quantos sonhos sobrevivem a dilapidação de ideais?
Quantas vezes é preciso mentir para ser levado a sério?

Quantos são os números que te vestem?
Quantos são os degraus para a depressão?
Quantos são os momentos necessários para a desilusão?
Quantas são as sentenças para acabar com um coração?
Quantos são os quantos para deixar de se querer tanto
sonhos não sonhados e temores irrealizados?

Quantas são as mulheres habitantes de cada homem e suas histórias?
Quantas são as mulheres que se habitam em vez de passear como invólucros vãos?
Quantos? Quantos? Quantos?

Quantos são os quantos para livrar-se de tantos quantos?

Tatiana Mamede.

Agradecimentos à Aninha pela ajuda htmlística, na escolha da vitrola e, especialmente, no título! 
 
Deleite-se ouvindo Stone free - Eric Clapton