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12 dezembro, 2007

Eu não sou um bom lugar...


"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria;
aperta e daí afrouxa.
Sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem."
João Guimarães Rosa


Foto: Photographer's Choice

Não sou bom lugar para mesmice
Para enfeites de rena e confeitos de açúcar
Tampouco espaço para luas trêmulas ao som das ruas
Nada tenho a oferecer aos templos de comprar a si
Perspassam-me as alegrias sem vivacidade
As tristezas sem sentimento
Lugarejo destes aonde erguem-se
as esferas cristalinas e brilhantes
De uma neve aqui jamais caída
Expressões do total inadequado mim.

Sou um dissonante, agudo-grave
Ritmo de clave flauta
Doce agudo que dispara
Os sentidos todos dos não lugares.

A aceitação imodesta
Dos imperfeitos de mim
expressos nos outros
Faz-me casa, lar, retiro,
Dos bons lugares em que se é só
sem nunca ser sozinho.

Tatiana Mamede.

Para Flavitcho, este ser ausente presente com o dom de despertar-me pensamentos incoerentes que fazem deparar com alternativas realidades perdidas em muitos outros lugares dentro de mim.


Deleite-se ouvindo The river sings - Enya

07 dezembro, 2007

Magma




Imagem: Tarlei Melo


Veio de arrabalde a ventania
Içou-me da Terra inteira
nuinha de rios e matas
Vi-me formar assim
entre o espanto e o orvalho
Senti-me das folhas a amada
Não mais passeio do vale
Mas todo ele num
Único voejar arvorado
Bálsamos nasciam em mim,
floresta arrancada e
Enraizada em toda orbe.
Avistei-te. Tornei-me ébria
Bastou que o visse, erguendo
soberbo os cabelos do Tempo.
Já não era mais o nascimento do inteiro
Mas renascia-me toda inteira por dentro.
Ventania do âmago parida
Não mais apenas da Terra a filha
Nascida Dela, pelas barbas Dele fecundada
Era eu então toda uma nova Alvorada.

Tatiana Mamede.
Tarlei, obrigada pela ajuda técinica e pelo desenho fantástico.

Deleite-se ouvindo "Io son l'umile ancella" - Montserrat Caballé
[Ária do Ato I da ópera italiana Adriana Lecouvreur; de Francesco Cilèa]

06 dezembro, 2007

Súplica

Foto: Riser


Escrevo com a mão torta, a mão rota, a mão morta
Espalha a mão amada vocabulários sem ordem
no pálido amante ávido
Entorta ais e emenda desejos triviais
em agonias de criar vida de palavras mortas
A mão muro, a mão porta, a mão fátua
Guia os olhos para as mortas caladas, aninhadas,
aguardadas, as desejadas sujeitas da minha língua inanimada
Abra-se, mão ignota, mostra a face cadavérica
Renascente de cada vocábulo esquecido em cantos de tristes alcovas
Levanta mão, desprega do flagelo lápis
Deixa de escrever mão amada, mão amaldiçoada, mão apaixonada
Caia em outra mão! Abarca-a de todo,
Sinta dela o odor, aspire o sangue terror.
Apague-se mão exilada.
Liberte-se, agarra a maçaneta ansiada.
Liberte-se, mão esganiçada, fuja da palavra enfurrajada.

Tatiana Mamede.


Deleite-se ouvindo Snowblind - Black Sabbath